Manda ver, Sol

Acordar cedo nunca foi uma ação habitual em meus dias. Lembro-me até dos dias em que eu não dormia em casa, dormia no colégio, nas carteiras, no meio das aulas. Durante toda a madrugada ficava na net, pois tinha, além do vício, a desculpa de que estava trabalhando (meu trabalho durava trinta minutos) e o restante era IRC, ICQ e Web na veia.

Mesmo não acontecendo com freqüência, eu adoro quando esses eventos ocorrem espontaneamente (acordar cedo pelo despertador é um saco). Hoje foi um desses dias. Comecei a bolar na cama depois de ter a minha mão mordida pelo cachorro do vizinho de meu novo apartamento, que não sei onde fica e muito menos entendi porque a imagem residual desse apartamento tinha tanto azul. Um pormenor: isso foi só um sonho. Era quase 5:00h e só depois que acordei pude perceber de onde vinha o cachorro do vizinho – a cachorrada toda aqui da redondeza estava latindo. Sabe-se lá.

Voltando ao acordar cedo (sou mestre em desviar assunto enquanto escrevo), adoro quando acontece, principalmente na segunda metade do ano, que é quando as madrugadas aqui da terrinha (interior do RN) esfriam um pouco. Frio aqui é artigo de luxo e nem mesmo sei se pode ser realmente chamado de frio.

Perceber o dia chegando, ver a imagem na janela sendo colorida, os tons de cada instante etc. O macharal que lê isso aqui vai dizer que sou viado. Fiquem despreocupado: hetero. Mas são coisas que gosto mesmo de vê. Nosso dia é tão corrido, tão urbano, cinzento e repetido que esquecemos de aproveitar essas coisas. Nesse relato, por exemplo, estou com minha janela entre aberta, vendo o movimento dos meus pais para lá e para cá, preparando-se para o dia e ninguém parou, por dois segundos se quer, para olhar para cima e notar o céu limpo, ou para perceber que a amanhã está agradável. Em suma, somos uns cegos.

Perdi a concentração. Fui fisgado pelo cheiro do café da minha mãe. Vou entregar-me.

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